"Coimbra tem mais encanto/Na hora da despedida". Todos conhecem estes versos de um dos temas mais famosos da música portuguesa, que pode bem ser emblemático de toda a carreira musical de Fernando Machado Soares, seu autor. Aquele que, nas palavras de José Niza "é talvez, depois de Menano e Bettencourt, o nome mais importante do fado de Coimbra, mais pela renovação que promoveu e pela qualidade e quantidade das suas composições, do que pela forma de interpretar, aliás também excelente. Na realidade foi este açoriano quem criou, no fundamental, as condições de transição do fado clássico para as baladas, as trovas, que as vozes e as obras de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira vieram imortalizar. Sem o contributo de Machado Soares, seguramente que teria sido outra, diferente e menos rica, a trajectória do Zeca e do Adriano, o qual gravou, aliás, muitas composições de Machado Soares". Açoriano, estudante de Coimbra, Fernando Machado Soares vai destacar-se no grupo de Luiz Góes, José Afonso, António Brojo, António Portugal, entre outros. Aí desenvolverá grande actividade artística como cantor, mas também compositor e poeta. Magistrado, Machado Soares nunca deixou de cantar, ainda que esta sua actividade fosse considerada censurável à luz da dignidade da função e cargo.
A voz de Deus não morreu e ainda se eleva bem alta
por ANTÓNIO PEDRO PEREIRA
Para quem acredita que o talento não lhe pertencia, mas era dádiva divina, dizer que Amália Rodrigues morreu há dez anos pode ser uma imprecisão biográfica. O corpo desapareceu, mas a voz e o legado mantêm a fadista viva e notada entre os vivos.
Foram 79 anos de presença física, já são 89 de mito - o que quer dizer que o corpo foi sepultado há dez anos. Amália, a voz do mistério, viveu mais ou menos 79 anos. Morreu, é certo, a 6 de Outubro de 1999.
E nasceu em 1920, também é certo (a própria não tinha dúvidas disso).
Em que mês? "A minha avó dizia-me que eu nasci com as cerejas.
Registaram-me a 23 de Julho.
Mas, ao certo, ao certo, não sei o dia em que nasci.
Cá por mim, optei pelo dia 1 de Julho, que é logo o princípio do mês", contava Amália da Piedade Rodrigues à jornalista Maria Augusta Silva há 24 anos (Revista do DN, 25 de Agosto de 1985).
Um mito sem mistério nunca seria um mito - Amália não queria ser uma lenda como a Severa, e não é. Nascida num qualquer mês de 1920, talvez Maio, mês das cerejas, andou "três anos e três meses na escola" (lamentou-se sempre da falta de estudos, mas diz que o fado a educou - insistiu nessa tónica numa entrevista simbólica a Baptista-Bastos, publicada no Diário Popular, em Abril de 1987).
Em Lisboa: viu a luz na Rua Martim Vaz, freguesia da Pena, viveu sempre na capital - primeiro do império colonial de Salazar ("nós somos o que nos ensinam, na escola ensinaram-me isso"); depois na de um país que lhe atirou à cara uma relação privilegiada com o Estado Novo ("tudo calúnias", protestou vezes sem conta - há quem diga que a única benesse foi uma viagem a Paris autorizada por António Ferro). Dizia-se que sempre em Lisboa: com os pais, depois com os avós (quando os pais regressaram à Beira Baixa), depois novamente com os pais. Como bordadeira, depois a vender bolos, finalmente a vender fruta com a irmã Celeste e a mãe (o pai era sapateiro mas "não sapateava", como glosou a fadista mais tarde).
Nenhum mistério aqui: um Portugal paupérrimo, uma família pobre, uma menina a fazer-se mulher muito cedo.
Mas nos três anos e três meses de escola ficava o sinal do destino: Amália brilhara a cantar numa festa da escola.
Aos 15 anos, o segundo sinal público do que viria aí - e o que viria aí não era qualquer coisa, era Amália. A fadista exibe-se numa festa de beneficência, com o tio João Rebordão à guitarra. Três anos depois, a fama popular de Amália restringia-se aos bairros: desiste do concurso para Rainha do Fado dos Bairros, face às ameaças de desistência das outras concorrentes, mas conhece o primeiro marido (Francisco da Cruz) e é recomendada a Jorge Soriano, que a leva ao Retiro da Severa.
O mito ia ao encontro da lenda - o fado começava aqui a rescrever-se, em Portugal. Data a fixar: 1938 (embora Amália ainda cantasse em casas amadoras com outro apelido da família, Rebordão - o irmão Filipe, pugilista, singrava com esse nome). "Na minha estreia, em 1939, no Retiro da Severa, levava um vestido amarelo às riscas verdes, com um peitilho. (...)
Recordo-me perfeitamente do medo que senti nessa noite, porque ainda é igual ao medo que sinto hoje, sempre que vou actuar.
" O medo acompanhou--a toda a vida, e foi combustível desse mistério que Amália alimentava ainda a misticismo:
"Eu não fiz nada para ter esta voz. Então, por que é que a tenho?
Alguém ma deu.
Acredito em Deus mesmo que não haja Céu", confessaria a Maria Augusta Silva em 1985, revisitando uma vida cheia.
"Uma mulher feliz com momentos de infelicidade. Sou como toda a gente, não acha?",
perguntava ela a Baptista-Bastos, 22 anos depois de um outra entrevista ao jornalista/escritor que, pelo tom polémico, tinha dado brado no Portugal profundo de 1965. Aí, já Amália era o mito que hoje continua vivo: tinha passado e deixado os palcos com as revistas (de Ora vai tu!, em 1940, até Se Aquilo que a Gente Sente, em 1947), tinha passado pelo cinema, tinha dominado os grandes palcos do mundo. Em 1952, chegou a Nova Iorque, em 1956 estreou-se no mítico Olympia (e na despedida de Josephine Baker) para semanas depois ser já cabeça-de-cartaz. Tinha-se já divorciado de Francisco da Cruz (em 1949) e casado com César Seabra (no Rio de Janeiro, em 1961, união que durou até à morte do engenheiro, em 1997), tinha deixado aquele que será o seu maior contributo, além da voz (mas essa, já se viu, não era dela: "foi Deus"): o cruzamento da música popular com a erudição dos grandes poetas, começando por outro imortal, Camões. Foi precisamente em 1965 que a Amália lhe aconteceu mudar o fado. "Cantar Camões?´
Pois canto Camões.
Sou totalmente dependente do que acontece.
Sempre fui",
explicou numa deliciosa entrevista concedida a Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso em 1988, que O Independente reproduziu logo depois da morte da fadista.
E na qual o agora político e o comentador/escritor lhe chamaram tão-somente "A voz de Deus em português".
O músico norte-americano Prince e a fadista portuguesa Ana Moura estão a trabalhar num projecto conjunto, disse à Agência Lusa uma fonte próxima dos artistas, depois duma visita do artista a Lisboa onde esteve na companhia da fadista. O cantor norte-americano, que confessou recentemente em Montreux, onde participou no Festival de Jazz, «ser fã de Ana Moura», esteve na capital portuguesa acompanhado pela fadista, a quem elogiou já publicamente «a sensualidade da voz».Na segunda-feira, Ana Moura e Prince passearam juntos pela noite lisboeta, tendo os dois estado no Bairro Alto e na avenida 24 de Julho.Ana Moura já colaborou com os Rolling Stones, com os quais actuou no Estádio de Alvalade, em Julho de há dois anos. Este mês foi editado o álbum «Stones world», um projecto do saxofonista Tim Ries baseado na música da banda britânica, que conta com a participação de Ana Moura nos temas «No expectations» e «Brown sugar».
Como gosto dos dois isto promete, fico á espera do sucesso, PARABÉNS ANA MOURA, VAIS LONGE.
Jorge Fernando da Silva Nunes nasceu em Lisboa no dia 8 de Março de 1957. Com quatro anos já acompanhava o avô a cantar fado o marido da Ti Preciosa chegou a a acompanhar Amália nas noites de Lisboa. Mas foi com 16 anos que teve a sua primeira experiência a sério, quando trabalhou com Fernando Maurício, considerado o "rei" do fado.
Aí deixou definitivamente para trás a sua carreira de futebolista, onde chegou a internacional júnior. Estava a ensaiar numa garagem (chegou a fazer parte do grupo Futuro) e disseram-lhe que estava lá perto o cantor Fernando Maurício. Quis conhecê-lo e mal o ouviu foi paixão absoluta.
Passado pouco tempo estava a tocar para ele. Nos anos setenta a gravou para a editora Alvorada o single "Trigueirinha" e outro com os temas "Se Me Pedisses Desculpa" e "Semente do amor". Com 19 anos conheceu Alcino Frazão, um dos maiores guitarristas da história do fado, e começou a tocar com ele. Um ano depois já fazia parte do grupo de Amália depois de ter substituido Alcino Frazão numa actuação com o Carlos Gonçalves e ele o ter convidado para tocar com Amália Rodrigues. Em 1982 participa no álbum "Fado!" de Nuno da Camâra Pereira. Concorreu ao Festival RTP da Canção com "Rosas Brancas Para O Meu Amor" em 1983. Apesar da fraca classificação o tema teve grande exposição pública. Toca e escreve três músicas do álbum "Sonho Menino" de Nuno da Câmara Pereira. Em 1984 lança novo single com "Fiz-me Vagabundo". Com "Umbadá" regressa ao Festival RTP da Canção de 1985. Participa também no Festival da OTI. Em 1986 é editado o seu primeiro LP, "Enamorado" que inclui temas como "Mulata" e "Lua Feiticeira Nua". Em 1988 lança o álbum "Coisas da Vida". A Rádio Comercial, por votação do público, atribui-lhe o Prémio Popularidade. Em 1989 lançou o seu primeiro disco de fados, "Boa Noite Solidão", onde colaboraram Fernando Maurício, Maria da Fé e José Manuel Barreto.
Inclui temas como "Pode ser saudade" e "Quem vai ao fado" Participa no Festival RTP da Canção de 1990 com "Via Área". O disco "Á Tua Porta" é editado em 1991. Produziu o disco "Notas Sobre a Alma" de Paulo Bragança e "Notas à Guitarra" de António Pinto Basto. "Oxála" é editado em 1993. Disco bastante elogiado pela critica. Em 1997 lança o disco "Terra d'Água". "Rumo Ao Sul" é editado em 1999. Em 2000 foi editado o disco "Inéditos", gravado ao vivo no Tivoli. Em Maio de 2000 comemora os 25 anos de carreira com um concerto no Tivoli. Em 2001 é lançado o livro+disco "Terras do Risco", projecto do pianista italiano Arrigo Cappelletti com poemas de Fernando Pessoa, Mário Sá-Carneiro e Eugénio de Andrade.
Os outros colaboradores são o bandoneonista Daniel di Bonaventura, o guitarrista Flavio Minardo, o violoncelista Davide Zacharia, Custódio Castelo, na guitarra portuguesa e a cantora Alexandra. É editado em 2002 o disco "Velho Fado". Em 2003, a cidade italiana de Recanati homenageou-o em reconhecimento do seu talento como cantautor, produtor, instrumentista e impulsionador de novos talentos (Academia de Marco Poeta). Em Janeiro de 2004 é o director musical do espectáculo "Boa Noite Solidão" de homenagem a Fernando Mauricio. Participa no disco "A Tribute To Amalia Rodrigues" No disco "Memória e Fado" apresenta alguns duetos e colaborações curiosas (Lucio Dalla, Ana Moura, Toninho Horta, Egberto Gismonti).
Gravado em Portugal e no Brasil, o disco contém ainda quatro versões. O maior destaque é um excerto de uma actuação ao vivo de Amália Rodrigues, gravado em 1994, com o tema "Vida". Em Outubro de 2005 comemorou os 30 anos de carreira com um concerto no Fórum Lisboa, que contou com a participação de Argentina Santos e Celeste Rodrigues. Colabora com o rapper Sam The Kid com quem actua nas Festas de Lisboa de 2008. Além da banda de Sam the Kid, em palco estiveram Custódio Castelo (guitarra portuguesa) e Filipe Larsen (viola baixo). Em Outono de 2008 deverá ser editado um novo álbum.